terça-feira, 15 de setembro de 2026

Titanic

Normalmente quando eu vou escrever alguma coisa, "um dos meus textos", mais ou menos eu já tenho algo planejado _ já tenho um "projeto de texto", coisa que, a propósito, é algo que eu pretendo ensinar para meus alunos. _ Mas hoje, estou escrevendo "à deriva" (e essa metáfora, que eu acabei de pensar, bate direitinho. Vocês já vão entender. Vocês quem?).

Eu não tenho um projeto de texto desta vez. Tudo que eu tenho, e que me motivou a escrever, é uma metáfora marítima (Não disse que "à deriva" iria bater direitinho?) que tem se repetido constantemente na minha cabeça na última semana, e que vou transcrever agora, seja lá como as ondas do pensamento quiserem _ só para continuar na temática oceânica.

Como professora, eu sinto como se estivéssemos no Titanic,  ele já bateu no iceberg e está afundando. O Titanic é o Brasil, é a sociedade, é o sistema educacional. Está afundando... Lentamente, mas afundando. 

Os professores estão boiando em tábuas de guarda-roupas, enquanto os estudantes estão na água gelada, se afogando no mar da ignorância. 

Muitos professores já desistiram, deitaram no pedaço de madeira e esperam, com frio, medo, tristeza e impotência, o resgate. Ele virá?

Mas alguns poucos ainda tentam, desesperadamente, atirar boias e cordas para salvar os alunos, porém estes parecem não querer ser salvos. Um ou outro ainda bate os braços e pernas, desajeitadamente, com o pouco que aprenderam sobre nadar, e tentam alcançar os professores. Enquanto outros, vários, muitos, a maioria, brinca de afogar o colega, ou nada para mais e mais longe das cordas e boias que os professores tentam lhes atirar. 

Parece que eles não entendem pra que servem essas cordas e boias. "Olha lá, a primeira classe tem botes salva-vidas! Por que a gente não tem? Eu não quero essa bóia véia-pôdi! O que vou fazer com isso? Eu quero é ser famoso, bora fazer uma dancinha!" 

E o professor tem que convencê-los a segurar na corda, que não é a melhor opção. E o professor tem que implorar para eles se agarrarem na boia, que não é a melhor opção. Não é, mas é a única opção que temos, a única que nos sobrou, a única que pode nos dar alguma chance de sobreviver enquanto não chega o resgate. Ele virá?

E o Titanic vai afundando, a galera se afogando, os professores desistindo e criticando os que ainda atiram as cordas e boias (Sim. Tem que ter cordas e também boias, porque é necessário variar as opções para ver se atraem os alunos.). "Olha que loucos! Olha que tolos! Vão acabar se matando tentando salvar quem não quer nada!". A primeira classe lá longe olhando esse show de horrores e reclamando que essa gente faz barulho demais. "Por que eles não se esforçam? Tem que se esforçar para merecer o sucesso." Mas ajudar que é bom...

Eu sou dessas que se equilibram na porta do guarda-roupa... Na tábua da Rose "não cabia" o Jack. Mas na minha tem mais 3 pessoas. É por causa dessas pessoas que eu não posso me desequilibrar atirando cordas e boias e acabar caindo na água gelada e me afogando. Mas eu ainda não desisti... Eu me apego na ideia de que talvez eu possa salvar alguém... Talvez... Só um..

E ao fundo pode-se ouvir o doce e melancólico som dos violinos tocando uma última canção: Pátria amada, Brasil...

Rita de Cássia Vasconcelos.

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