terça-feira, 7 de julho de 2015

Ficcional, mas poderia ser real

"Respeitar a vida e a diversidade, rejeitar a violência, ouvir o outro para compreendê-lo, preservar o planeta, redescobrir a solidariedade, buscar equilíbrio nas relações de gênero e étnicas, fortalecer a democracia e os direitos humanos. Tudo isso faz parte da Cultura de Paz e Convivência. Mas é importante ressaltar que a Cultura de Paz não significa a ausência de conflitos, mas sim a busca por solucioná-los através do diálogo, do entendimento e do respeito a diferença." Instituto Pólis
O texto a seguir, escrito em forma de diário, nos leva a refletir sobre problemas que constituem obstáculos para a construção da Cultura de Paz e que são, cotidianamente, enfrentados pelos jovens e pela escola. Esses problemas não devem ser negligenciados: Homofobia, Intolerância e Bullying.

Tolerância, ou a falta dela

N.d.A.: A fim de preservar a privacidade dos envolvidos, somente alguns trechos do diário serão publicados aqui nesse texto.



Domingo 03/05/2015

Olá, eu acho.

Eu não sei direito como fazer isso, nunca tive um diário, mas de acordo com minha mãe, escrever é uma boa maneira de descarregar meus sentimentos. E pensando bem, eu preciso de uma espécie de refúgio. Não me entenda mal, eu não sou algum tipo de psicótico desequilibrado, apenas tenho tido alguns problemas na escola... Tudo bem, não foram somente alguns problemas, alguns garotos podem ter ficado muito irritados comigo, e eu apanhei um pouco, mas absolutamente não foi culpa minha.

Acontece que eu gosto de garotos, e por algum motivo estúpido, ser gay é um enorme problema e é motivo para agressão ¬¬. Sim...eu também não entendo. O ponto é que por causa disso, minha mãe decidiu me mudar de escola e a partir de amanhã eu vou deixar de ser a “aberração” pra ser “o novato estranho” como se já fosse fácil ter 15 anos -.-.



Segunda-feira 04/05/2015

Você conhece a lei de Murphy?

Bem, basicamente a lei diz que se uma coisa pode dar errado, ela vai dar, e se essa coisa está ruim, pode com certeza piorar. Agora eu acredito completamente nessa lei.

Estava eu, esperançoso, indo para meu primeiro dia na escola nova, quando um cara passa por mim e me dá um tapa na cabeça (um dos babacas da minha escola antiga) tentei manter o meu orgulho e segui em frente, chegando na escola, eu fiz a coisa mais ridícula que poderia, errei a sala. Depois de alguns minutos sendo observado, fui levado à sala certa e mais uma vez todo mundo começa a me olhar (parecem urubus vigiando uma carcaça... urubus... bom nome pra eles haha) e a pior parte ainda estava por vir, a maluca da professora achou que fosse uma boa ideia eu me apresentar e “falar um pouco sobre mim”, sério, em que planeta isso é uma coisa que não faz as pessoas rirem de você (a mulher só pode ser maluca mesmo, ou o universo está conspirando contra mim) fora isso ainda teve a “aura de esquisitice” que me rodeava... Odeio a lei de Murphy ¬¬.



Quarta-feira 03/06/2015

A adaptação à minha nova e “adorável” escola não está fácil, ao que tudo indica, todos os idiotas de lá descobriram sobre a minha sexualidade (não que eu tenha tentado esconder, mas tenho péssimo hábito de tudo que me vem à mente sem perceber, então já devo ter me assumido inconscientemente um monte de vezes) e como esperado, desde o momento que descobriram, começaram a pegar no meu pé, pelo menos não me incomoda tanto como costumava, as “brincadeiras” e os insultos são sempre os mesmos, é mais como enfrentar um mosquito, irritante mas ignorável. O que realmente me deixa triste é que ninguém fala comigo, parece que todos são uma só pessoa, com os populares como cérebro, já que não gostam de mim, todo o resto também não gosta. Mas também há a possibilidade de eles serem todos preconceituosos... Não sei o que é pior.



Quinta-feira 02/07/2015

Você não vai acreditar... Eu tenho uma amiga. *-*

Você não vai acreditar 2... Ela é uma das populares que me odeiam. *-* (ou costumava ser).

Só pode ter sido obra do destino nós termos nos tornado amigos. Num determinado dia, um de meus adoráveis professores resolveu passar um trabalho em grupo (pro meu tormento; Eu sempre faço tudo e ainda tenho de aguentar zoação de meus adoráveis colegas de grupo) enfim, trabalho em grupo dado, chegou a hora de escolher os grupos, eu como sempre não me manifestei e fiquei esperando pra ver quem seriam os felizardos que levariam nota encima de meus esforços. Pra minha surpresa, ficaram sobrando somente eu e a garota (vou chama-la de B) que no dia não tinha ido à aula, daí foi esquecida pelas amigas (pensando bem, acho que as amigas dela não são muito boas).

No outro dia ela veio até minha pessoa e perguntou como íamos fazer, (me surpreendi, porque até então ninguém tinha nem se dado ao trabalho de mostrar interesse em me ajudar com qualquer tarefa) marcamos o dia e ela virou as costas e nem falou mais comigo (típico, pensei). Chegou o dia de fazermos, nos encontramos e no começo ela estava meio entediada (pra dizer o mínimo), mas quanto mais conversamos mais ela se soltava (não se via uma única centelha de ódio homofóbico no olhar dela *-*) fizemos a tarefa e depois fomos comer algo, comemos e conversamos horrores.

No outro dia ela veio conversar comigo e até me pediu desculpa pelo comportamento anterior dela e dos amigos, acho que foi aí que nos tornamos amigos... O estranho é que desde esse dia, as amigas têm evitado ela... Quando perguntei o motivo ela só disse “piranhas”... Eu acho que é por minha causa, parece que a “lepra” que me afeta contagiou a pobre... Adolescentes preconceituosos -.-.



Sábado 08/08/2015

Ontem não foi um dia dos melhores, acordei deprimido e mais sensível que o normal (O.o nem sabia que era possível) e parece que os “adoráveis urubus” farejam a fragilidade dos outros, me atormentaram mais que o normal, e eu como mente brilhante que sou comecei a chorar como uma criança (sério,  nem eu acredito em tamanha demência) daí a B resolveu que eu precisava ser salvo... A injustiça do universo só foi comprovada ainda mais quando ela foi suspensa por quebrar o nariz de um dos idiotas e ele ficou como a “vítima indefesa” -.-. E o pior de tudo é que eu fiquei parado olhando ela se ferrar... Além de ser viado ainda tinha que ser frágil (não podia ser mais estereotipado não, universo?). Odeio minha vida -.-.



Quinta-feira 13/08/2015

Eu tentei por toda minha vida lutar contra a tristeza e fingir que o que as pessoas diziam não me afetava, mas essa semana que passei sem a B me fez perceber que sem as outras pessoas eu não consigo me sentir bem... Porque é tão difícil pra eles aceitarem uma coisa que é só minha e que não vai influenciar eles em nada? E o pior é que não são só essas crianças sem cérebro próprio que me odeiam, hoje ouço minha mãe contando a meu pai que nós não fomos convidados a uma festa de família porque “a minha presença causa desconforto” porque essas pessoas que deveriam ser meu suporte me rejeitam? Será que eu sou algo tão errado assim?... Não.

Eu estou cansado, tão, tão cansado de reprimir o que eu sinto e de pensar que o que eu gosto é errado... Parece que todos eles preferem a minha morte à minha presença...

Quem sabe...

Uma última vez...

Eu possa me render a eles...



01/09/2015


01/10/2015


01/11/2015


 Domingo 20/12/2015



Achei que o diário deveria ter um final digno então resolvi escrever.

A mãe dele encontrou e como eu era a única amiga dele, achou justo dar a mim, e sinceramente, fiquei feliz por ler as coisas que ele escrevia e ver que por ao menos um tempo eu o ajudei a não enlouquecer.

Desde a morte, a raiva e a tristeza são sentimentos que eu convivo com frequência; Tristeza por ter perdido ele, por saber que nunca mais vou ouvir sua voz ou ver seu sorriso. Raiva dele por se entregar tão facilmente, raiva de mim mesma por um dia também ter feito parte das brincadeiras, e raiva das pessoas que nos dias em que aconteceu “ficaram desoladas” e cheias de sentimentos que surgiram repentinamente em suas mentes manipuladoras e preconceituosas... Bando de hipócritas, como todos esses sentimentos que eles falam tanto não existiam quando brincavam e mexiam com as emoções do garoto? Como não veem que toda a falta de respeito e o preconceito deles foram os principais culpados pelo suicídio dele? E agora esses ignorantes vivem suas vidas medíocres e superficiais como se não tivessem tirado a vida do garoto que era muito, muito melhor que eles e que sofria agressão sem o menor motivo. A verdade é que ele estava em um estado tão grande de desespero e depressão que não viu outra solução, e eu não vou perdoá-los por isso não importa o quanto se achem inocentes.

Porém quanto mais eu penso nele, vejo que a sua memória não deve ser marcada pela raiva, mas sim pela felicidade que é o que merecia.

Vou honrar sua memória querido, nunca desrespeitar e sempre combater todo tipo de preconceito que eu veja, pra não deixar que outra pessoa que eu conheça sofra como você sofreu... Vou ser feliz por nós dois, e isso é uma promessa.

B.
Mateus Lucas Pimenta, 2o ano 10.

O Instituto Pólis, um Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais é uma Organização-Não-Governamental de atuação nacional, constituída como associação civil sem fins lucrativos, apartidária, pluralista e reconhecida como entidade de utilidade pública nos âmbitos municipal, estadual e federal. Seu objetivo é ser um pólo formulador e irradiador de criação e de compartilhamento de conhecimentos, práticas e políticas públicas de convivência e Cultura de Paz.

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